sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sentença

Fui condenado a te ver
Como um vaso na estante,
Como uma paisagem distante, 
Pelo mero deleite ocular...
Deixando o desejo lá fora,
Feito um cachorro preso.

Fui condenado a me ver 

Sem o sentimento absoluto de posse,
Como quem se comove 
Com as estrelas 
Só de vê-las,
Só de tê-las ao olhar.


Fábio Murilo, 13.08.98

Segue o Teu Destino - Maria Bethânia/Ricardo Reis

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Da Incorporação do Corpo

O corpo tem suas exigências
E não se contenta com tão pouco...
De nossa moral e bons costumes
O corpo está isento e imune.
Indômito o corpo, no intimo,
Permanece atônito e insone.
Pois nunca estará extinto
O instinto do corpo.

Fábio Murilo, 15.05.94

Meu Louco Bisavô - Edson Marques/Abujamra

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Rebelde com Causa

Desculpem.
Não dá pra sorrir.
Pra manter a necessária calma.
Se estou insultado até a alma.
Não da pra disfarçar o ressentimento,
E me esconder por trás de indecente aparência.
Não dá pra abafar o mau cheiro
E virar as costas a imundície exposta.
Não, não dá pra sufocar o asco
E ter que me contentar 
Com o lado podre da maçã.

Fábio Murilo, 30.04.90

Lúcio Mauro (Monólogo das Mãos)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Acontecência

Quero viver a todo custo, a todo susto,
Morrer de ansiedade querendo a saciedade.
Melhor que não ter sido.
Que a adrenalina seja nitroglicerina,
Queimando nas veias, emoção pura.

Ou se morre de tédio, ou se vive estressado,
Não tem jeito, prá morrer estamos fadados.
A vida só vale pela emoção.

Qual a função das pedras, ensimesmadas,
Criando lodo de tão paralisadas,
Enfeitar o chão?

Tudo na vida vale à pena,
Horror é não fazer nada, é o nada.
É não acontecer, quando se poderia ser,
E se arrepender do que deveria ter sido.

Fábio Murilo, 07.06.2012