sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Na Realidade



A realidade me traga,
Feito uma draga voraz.
E me impõe o real,
O que ai está.
E é difícil falar de amor,
Falar de prazer...
Não há lugar para sonhadores
Para visionários,
Pra essa gente que vê além.
Que busca um espaço afora
Do que lhe fora determinado,
Não há... A realidade
Tem lá os seus tentáculos.

 Fábio Murilo, 17.09.19...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Atemporal


Não amadureça assim como os previsíveis frutos
Nas arvores tristes, cujas raízes, expostas, a terra
Já não mais atura, basta a feiura dos arbustos.
Mantenha a verdura, o frescor após o outono,
Mostrando que foi engano, que não se foi, voltou.
Na entristecida paisagem, onde antes havia flores,
Canto de pássaros, frescores, orvalho, clorofila.
Generosa sombra, ao redor, contornando, heras,
Renovadoras rosas fabricando a primavera.

Fábio Murilo, 30.11.2015

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por Contigência

Toda uma vida consumida
Nessa grande arena
Onde nos digladiamos em luta
Em mutua concorrência:
Galgar íngreme subida
De tão difundida e cobiçada
Ascensão social, aspirando
O que deveria ser o básico.

Toda uma vida alugado,
Vendido, desapropriado
De si próprio,
Entre o uso e o desuso
Nada mais que um parafuso.

Fábio Murilo, 26.11.198...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Tragédia Anunciada


Alguém jogou uma casca de banana no chão. Outro alguém ia passando, escorregou, caiu e teve traumatismo craniano. Socorrido não resistiu, morreu, deixando mulher e dois filhos. A mulher nem trabalhava, os filhos tão pouco, mal adolescidos. Os dias foram passando... A mulher foi ficando amarga. Começou a faltar carne, arroz, feijão e outras necessidades básicas, inclusive afeto, alimento da alma, a presença masculina, o pai, o marido, o provedor. No lugar da presença a ausência, agora, sua única companhia, se agigantando... Restou um oco tamanho do mundo, um buraco sem fundo, um túnel sem nenhuma luz. Olhava com apatia o quarto vazio... A cama enorme... Um rio de saudade inundando a casa. Não mais aquela presença tão a mão, tão amiga, o marido, o amigo, o irmão, aquele que providenciava tudo. Tão cotidiano, tão palpável, tão amável.  Tão acostumada que estava, tão diuturnamente constante, nunca mais... Como era possível?! O que, agora a pouco, tão presente, estava ausente, e, ao mesmo tempo, tão vivamente constante,  onipresente,  já não  mais estava, restara inesquecível.

O filho foi crescendo, se regenerando, criando barba e outros sinais de emancipação, era um rapaz. Se envolvendo, como dizem, com más companhias, tornando-se um produto do meio. Cadê o pai pra dar-lhe conselhos? Ficou uma lacuna, um vácuo, uma perigosa concessão. A mãe a muito era uma figura apagada, descuidada, destruída, um esboço de vida, uma ferida aberta, uma lamentação. Vivendo por viver, pelos cantos, sem encanto, por obrigação, nem ligava.  Ao filho, estava escrito, destinado, predito, tão certo como dois e dois são quatro, não cinco, virar ladrão. A filha, linda, cresceu aos olhos de todos os abutres de plantão, dos galanteadores, dos labiosos, Don Juans periféricos, do alto de suas motos potentes, símbolos de ostentação, que enchem as pistas e a vista das mocinhas, marias gasolinas, como ela, de plantão. Outdoors ambulantes, são eles, papéis de paredes itinerantes, homens-cobras, tatuados. Ela formosa, carne nova no pedaço, rubra rosa, a “novinha” dos bailes Funks. Agora falada, de mão em mão, de um, de outro, de todos, virou até mulher de bandido. Disseram, até, já tê-la visto toda enfeita nas esquinas do centro, agora mulher, mulherão, moça de programa. Não do programa do Luciano Hulk, nem do Faustão, uma das dançarinas. Tinha jeito, tinha corpão, tinha rosto bonito, mas não, seguiu outra sina, dançarina de outros palcos, de outro publico, menos seleto, mais eclético, menos pudico, indiscretos, em ambientes não muito recomendáveis, nem um pouco requintados, de mão em mão. Inclusive, por ironia, também nas mãos de quem um dia, sem saber que seria o pivô de toda essa situação,  jogara a inocente casca de banana no chão.