sexta-feira, 8 de abril de 2016

Fuga

 
- A gente só foge daquilo que a gente sabe
Que não pode lutar contra.
E é por isso, que eu fujo de você.
Perto de você, eu não conseguiria negar
O amor que ainda sinto,
Que ainda mora em mim...

- ... Coisa complicada sentimento.
Seria mais fácil deixar fluir, subsistir sem amarras.
Como o rio que corre e não se interroga,
E não se represa, vira afluente,
Espalha-se em mangues, iguala-se ao mar.
Muitos nomes, muito jeitos, sem deixar de ser líquido,
Pula destemido no precipício,
Corre todos os riscos, sem eira nem beira,
Vira cachoeira a se deixar levar.

Parceria poética: Nanda Olliveh e Fábio Murilo

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Gris


Os olhos subversivos, incisivos,
Esmeraldas, esmerados, da moça,
Escandalosamente verdes, me salve.
Sentado a beira mar as três da tarde
Só voltarei as seis, nem ai, iodado,
Alvorecido, reabastecido, vivido,
No ônibus lotado, na hora do “rush”
De corpos exauridos, sugados,
Cuspidos, purgados, abatidos,
Suados, resquícios, fedidos,
Náufragos, entediados, vencidos,
Ansia(dores) de feriados.

Caminhar no centro da cidade
Na chuva, como no tempo
Que não havia necessidade
De matar o tempo, de passatempos
Pra adiantá-lo, pra passá-lo.
O tempo era nosso amigo, aliado,
Que não se sabia de horas
aprisioná-lo um dia, como agora,
Em folhas de calendários.

(Fábio Murilo, 01.04.2016)


sexta-feira, 25 de março de 2016

Motivação


A hora que você vier serei porto,
Serei louco de quebrar protocolos,
Adiar compromissos, atrasar horários.
Serei o que der na telha, motivado.
Festa fora de hora, fruto fora da estação.

Um reles cacto, como é que pode,
Sem aspecto nobre, sem valor, atenção,
Operar o milagre de abrir-se em flor.
Além de espinhos, também ser cor,
Sedosas pétalas ao calor de tua mão.

 Fábio Murilo - 21.03.2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

Das Reviravoltas


A vida seria um pesado fardo
Sem a possibilidade de um aceno.
Embora a desilusão nos assombre,
Abane o rabo feito um cão sarnento.
Embora o descontentamento, o chão.
Os dias já são um tédio só, lerdos, frios,
Vazios, tenebrosos, sem opção.

Algo que nos aponte uma saída,
Uma brisa de uma fresta de telha,
Uma gota de  chuva, um plano,
Um alívio, um suspiro, uma uva,
É tão pouco que precisamos.
Ir à tona,  tomar um fôlego,
Recuperamo-nos dos sustos,
Do lúcido, palpável, imediatismos.
Das obrigões dos homens de aço
E nos sentirmos vivos.

Fábio Murilo, 17.03.2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma Boa Razão


Os dias são tão vazios,
São tão rios sem rumo.

Os dias nada dizem,
São plantas sem raízes.

Preciso de um acontecimento,
De um evento extraordinário.

Tão insatisfatório e vário,
Nesse mundo estranho e vão.

Preciso de você
A preencher todos os vãos.

Fábio Murilo, 09.03.2016