sexta-feira, 22 de abril de 2016

Aos que tão bem se combinam


Minha alma gêmea, gentil, germinada,
De repente acredito em destino, sina.
Desses encontros sem hora marcada,
Em desencontros que não dão em nada,
E mais ainda, em outros encontros.
Certas tramas que a gente engana,
O que se procura tanto, por encanto,
Quando menos se espera nos alcança.

Minha metade da laranja, cara metade,
Extremamente assemelhada, achada.
Minha outra parte dissociada, refletida.
O que digo, por ti, já foi dito,
O que pensas, por mim, foi previsto.
Onde andavas, que não te conhecia antes,
Onde estavas que não me havia visto.

Fábio Murilo, 21.04.2016


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sedução

 
Teu trunfo é tua beleza,
Feito cerejas à tarde.
E cegas mil sóis
Com o farol da face.
Aragem, penugem,
Teu corpo esculpido
Por ventos alísios, 
É nuvem, é brilho,
É vidro, seixo polido
Por águas incontáveis.
A vida te fez suave.

Fábio Murilo, 02.04.2016
 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Fuga

 
- A gente só foge daquilo que a gente sabe
Que não pode lutar contra.
E é por isso, que eu fujo de você.
Perto de você, eu não conseguiria negar
O amor que ainda sinto,
Que ainda mora em mim...

- ... Coisa complicada sentimento.
Seria mais fácil deixar fluir, subsistir sem amarras.
Como o rio que corre e não se interroga,
E não se represa, vira afluente,
Espalha-se em mangues, iguala-se ao mar.
Muitos nomes, muito jeitos, sem deixar de ser líquido,
Pula destemido no precipício,
Corre todos os riscos, sem eira nem beira,
Vira cachoeira a se deixar levar.

Parceria poética: Nanda Olliveh e Fábio Murilo

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Gris


Os olhos subversivos, incisivos,
Esmeraldas, esmerados, da moça,
Escandalosamente verdes, me salve.
Sentado a beira mar as três da tarde
Só voltarei as seis, nem ai, iodado,
Alvorecido, reabastecido, vivido,
No ônibus lotado, na hora do “rush”
De corpos exauridos, sugados,
Cuspidos, purgados, abatidos,
Suados, resquícios, fedidos,
Náufragos, entediados, vencidos,
Ansia(dores) de feriados.

Caminhar no centro da cidade
Na chuva, como no tempo
Que não havia necessidade
De matar o tempo, de passatempos
Pra adiantá-lo, pra passá-lo.
O tempo era nosso amigo, aliado,
Que não se sabia de horas
aprisioná-lo um dia, como agora,
Em folhas de calendários.

(Fábio Murilo, 01.04.2016)