quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Preferida


Uns se afastam e não me afetam,
Não interessam, não deixam rastros.
Mudam de cidade, planos, rumo,
Vão embora e nem me preocupo.
Tragados pelo cotidiano, escapam,
Ao som de um berrante chamando-os
Quais reses desgarradas ao rebanho.

Você não, é como perder um braço,
Uma perna, um pedaço, uma parte.
Meu relógio contam horas, eras
De minha espera por sua demora.
Pois quando você parte eu surto,
Você indo embora eu vou junto.

Fábio Murilo, 05.06.2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dizimo, Com Quem Tu Andas


Deus me livre do deus de gravata,
Do deus burocrata,
Do deus empreendedor,
Em vez do Deus do amor
E da caridade.

Deus me livre do deus formal,
Cheio de etiquetas e intransigente,
Dessa gente pior que ateu,
Que finge em acreditar em Deus.

Deus me livre do deus que cresceu,
E hoje, em vez da manjedoura,
Deita em reluzentes altares;
Em vez de burro, anda de Ferrari.

Do deus desses fariseus,
À sua imagem e semelhança:
Deus da ganância,
Do evangelho da prosperidade.

Fábio Murilo, 07.03.2010

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Faz Parte


Cada afago que te dão são como chicotadas,
Cravos que elegantemente ardem na minha carne.
Dardos lançados, milimetricamente direcionados,
Ladros de cães sem dono na madrugada.

Execrado no meio da praça, feito em postas,
Exposto nu, ao relento, congelado, sem alento.
Queimado, esfolado vivo, entregue aos urubus...
Quem tatuagens ama voluntariamente sangra.

Fábio Murilo, 20.05.2016

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O Presente


Muitos apenas te desejam e eu a almejo
Como a derradeira estrela da manhã,
Uma aldebarã de vasto brilho,
Onde não alcança o amplexo solar.

Muitos te cortejam, até de longe, do oriente,
Com joias raras, correntes de ouro, pingentes
Pra adornar teu pescoço. E eu tão somente
Tenho um jardim florido, singelo, pra ofertar,
Com lírios, tulipas, flor do junquilho, dálias...
Já que és sensível e calma, pra enfeitar-te a alma.

Fábio Murilo, 07.05.2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O Cidadão


Vejo o sofrimento estampado
Na face oprimida do cidadão,
A humilhação elevada
Ao seu grau estremo.
Lamento sua fragilidade,
Sua cabeça à premio,
Sua luta, de cotidiano fel,
Pra garantir o pão,
Gastronômico troféu.

Sinto seus ombros sobrecarregados
Sob o peso das pressões,
Das tensões desse mundo cão,
 Da droga de sociedade 
Que ele compõe.

Da vida imitando a arte, 
Da ficção imitando a vida,
O criador subjugado
À própria criação.

Fábio Murilo, 16.12.198...