sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Guerreira


Guerreira eu sei que tua vida não tem sido fácil, eu sei, guerreira. Mas, és valorosa, tu és uma rosa no meio do charco, tu és de ferro, uma rocha inabalável que o vento fustiga, as ondas castigam e em troca te adaptas, virás escultura, fica mais admirada, admirável, mais bela, transformas as vicissitudes em lucro, aprendizado. 

Daqui de baixo observo teu rastro, nessa insignificância cotidiana, sobre a qual tu planas feito um pássaro, uma águia soberana, com tuas lindas plumas reluzentes, incandescente, contra o sol inclemente, realçadas. Também tens a brancura das garças, és uma graça, guerreira, que nunca se macula, se suja nas águas turvas, barrentas dos rios correntes, e magoas adjacentes, sempre reluzente, de um branco impecável, que dói na vista, mesmo na lama dos mangues. Tens a envergadura dos condores dos Andes, nas alturas, nas dores, aonde ninguém se aventura, só tu guerreira, mulher ave, leve. 

Teu fôlego é impressionante e impressionável, também mergulhas, quando queres, perfeitamente adaptável aos mares insondáveis, nunca dantes navegados, meio mulher, meio ave, meio peixe, sereia, peixe voador, seria, mais apropriado chamar-te, em tal profundidade aonde só são observáveis os peixes abissais, com seus corpos brindados, iguais ao teu, guerreira, que aguentam pressões absurdas, temperaturas incalculáveis e no entanto nada dizem, reclamam, como que acariciados no ambiente adverso, simplesmente pairam, calmos, tranquilos, esguios, encantam, fascinam, até produzem luzes próprias que nem vaga-lumes de um céu ao contrario, no breu dos mares, no frio extremo onde nada mais sobrevive. 

E já és vitoriosa, guerreira, vivo te dizendo, te proclamando, só sendo agora o que és. Mas com teu jeito versátil, dinâmico, não paras, não te dás por satisfeita, vencida, sempre inventando, se superando... És uma sobrevivente, guerreira, da mesma feitura dos metais preciosos, pérolas, pedras raras, valiosas, emergentes dos fundos dos rios, da profundeza hostil da terra, do barro, que não se compara a qualquer seixo, pedregulho, cascalho e que devem ser guardados a sete chaves, com todo cuidado e zelo, porque são difíceis de tê-los e encontrá-los.

Fábio Murilo, 04.12.2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Eis a Questão


Minha vontade te queria perto,
A perfeita adequação, simetria,
Que qualquer uma teria, bastasse
Ter tua cor, teus cabelos, teu jeito
Noutros corpos feitos, continuados.

Aquela da esquina podia ser tu,
E mais aquela outra, no ônibus
E essa, tão parecida então...

Seria mais cômodo, mais fácil.
Menos inacessível, improvável.
Se o sentimento tivesse lógica,
Se no querer houvesse razão.

Fábio Murilo, 29.11.2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Em Compensação


Nossa relação vai durar para sempre
Porque nutre-se de saudade, aflição.
Nunca acaba, entrementes, nunca enche,
Provisoriamente, feito num seriado antigo,  
Continuado num próximo capitulo.

Nunca se completando, no entanto,
Contrariando o plano de tê-la tanto,
Ardendo o tempo todo, incendiando.
Tendo, entretanto, o encanto inesquecível
Dos espetáculos dos fogos de artifícios.

Fábio Murilo, 07.11.2016

sábado, 29 de outubro de 2016

A Felicidade


Decidi que não escreveria
Mais sobre coisas tristes.
Já fui triste até demais!
Sei que dias tristes existem,
Que são eventos naturais.
Mas, incoerente, de pirraça,
Rirei sem graça, porei no céu
Uma estrela, se não a vê-las,
Esticarei bandeiras coloridas
De época junina no vazio.
Gambiarras improvisadas,
De lâmpadas incandescentes,
Que a gente simples, afeita
A tanta festa, enfeita, inventa.
Pintarei, no rosto um sorriso
Feito os palhaços de circo,
Que as crianças sem explicação
Tão bem o fazem e se comprazem
Rindo sem qualquer motivo.
  
Fábio Murilo, 29.10.2016

sábado, 15 de outubro de 2016

Essencial


Todos os sóis te sorriem,
E nunca estais só, ao redor,
Vejo girassóis e beija-flores.
Só quando tu vais, veja só,
Apagam-se todas as cores,
Amargam todos os sabores,
Odores, não cheiram mais.
A vida perde o porquê,
Porque o que faria sentido
Fica ambíguo, invertido.
Sem estímulo, nem sal,
O próprio universo, afinal.
Inverso, avesso, adverso.
Você é o verso e a rima,
Ainda dá sentido ao caos.

Fábio Murilo, 14.10.2016