sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Balzaquiana

  
Mulher de trinta, 
Pelas tuas carnes, talvez 36. 
Estais naquela idade 
Que a chama arde, só tu queima. 
Não é tarde, também  
Não é cedo, é plena. 
Madura feito uma fruta  
Colhida no pé. 
Sumarenta e cheirosa, 
Caudalosa, apetecida. 
Já não é mais botão, 
Broto, é flor, é rosa. 
Alcançou o auge, o ápice. 
Completamente desabrochada. 
Temperada,  
De um dia pra outro 
Pra pegar gosto, 
Ficar apurada. 
Vinho promovido a safra. 
Pedra lapidada. 
 
   (Fábio Murilo, 26.01.2021)
  

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Até que a Morte a Separe


A moça trabalhava como cozinheira num conhecido restaurante do centro da cidade, e ele, separado, morador dum prédio em frente, ela 26 anos e ele sex, sexagenário. Todo dia lhe mandava, com muito gosto por um garoto, uma caixa de bombons garoto. Ela ficava mais era enjoada: veio babão, enxerido, meloso, que nem se enxerga, afinal tinha 26 anos, tarado. Recebia os melosos mimos e nem gostava, ou se fazia, qual o ser humano no seu juízo perfeito que não gosta de ser agraciado, até de um cachorro balançando o rabo. Mas ela indiferente distribuía com as amigas os bombons sortidos.

Um dia, uma das amigas da cozinha, enjoada ou com diabetes já , lhe deu uma sugestão pro dilema do veio babão: " - Casa com ele, besta, daqui a pouco ele morre!", (era da reserva do exército), recebia um bom soldo, e tu fica com a grana dele e arruma outro, um boyzinho de reserva, novo igual a tu". Ela pensou com carinho na sugestão. E dias depois pra felicidade do veio babão mandou dizer pelo garoto que todo final de tarde lhe trazia os bombons, que queria, enfim, conversar com ele e imediatamente mais que depressa atendeu o chamado, "Certo mesmo é o ditado do povo pra cavalo veio o remédio é capim novo". Chegando lá ela sentenciou, foi curta e grossa em sua proposta: "- Olha ai veio! Gosto de tu não, hein? Vou logo avisando! Mas fico contigo se casar comigo de papel passado, junto com meus 3 filhos de bônus cada um de um dono! É pegar ou largar! Vai pegar não? Vai desistir de mim? Toma, quer mais não?" É tudo que ele queria, moveria mundos e fundos, o que ela pedisse faria, feito um cão amestrado, estava apaixonado: "quando o amor chega assim dessa maneira a gente nem leva em conta, querer-se não tem horário, nem data no calendário quando o desejo desponta".

Pois bem, ele casou, de papel passado, bem amarrado! E tirou ela do restaurante, não precisaria mais trabalhar. E levou pra morar no subúrbio, afinal era não precisaria e ele era estibado, dava pra ela e os filhos dos outros machos fuleiros.

Ah uma coisa que esqueci de contar... Ele era veio mas ela era gorda apesar de nova, de compressões monásticas, seios fantásticos, enormes! Dois airbags. Pernas limpas, no entanto, era nova, ainda no lucro, esticava e voltava e rosto agradável, dava pro gasto, apesar da boca ferina, de ordinário palavreado.

Mas foi indo. Ele ate colocou ela numa academia do bairro pra derrubar o sobrepeso, esticar alguma prematura pelanca, comprou comprimidos caros pra ela secar. Só sei que todo dia malhando, cantando, ordinária, os bombados, que eu soube, do recinto dito até por um vizinho, também frequentador que ate ele, ela chamou, que porem disse: “- Mulher respeite seu fulano! Ele lhe dar de tudo, sustenta seus filhos, vou não!" Daqui a pouco ela estava nos trinques, corpão, tudo socado! Merecendo até olhares, parando o trânsito, virada de cabeça dos motoqueiros.

E o veio era devagar, nem acompanhava ela no carnaval, onde ela fosse, nas festas, se apostasse corrida ele perderia. A lebre e a tarta(r)ruga.

Teve uma pessoa que num carnaval desse os acompanhou numa casa de praia e ficou chocada quando ele foi fazer um carinho no braço dela e ela estilou, deu-lhe um tabefe na mão dele irritada e ficou limpando enojada.

E gente minha que viu de madrugada, sem querer, em na ida ao banheiro quando ela embarcou, Cinderela num misterioso carro e foi levada e antes que o veio acordasse voltou e de manhã era apenas gata borralheira varrendo a frente da casa como bem prima toda dona de casa acima de qualquer suspeita.

Mas ele não tinha muito que reclamar afinal tinha alcançado seu objetivo, seu alvejado bibelô, agora a enfeitar a casa como um vaso de flor, uma passarinha na gaiola, que servia pra fazer frente aos amigos nas festividades, ser o centro dos comentários, invejado, a novinha e o (sex)agenário.

Até que um dia antes de dormir começou a se sentir mal, uma agonia, suor frio, vontade de vomitar, um desassossego, tonto, tanto que dormiu ou desmaiou e nem mais acordou. Teve um derrame, coisa muito comum em sua a idade, conforme o planejado, como ela esperou. Tragédia anunciada, fim do casamento na marra, gambiarra, empurrado com a barriga.

  Fábio Murilo, 29.10.2020


domingo, 4 de outubro de 2020

Fatal


Que rosto harmonioso
Que o olhar captura. 
Que gozo visual, 
Inesperado atropelo. 
Fisgar, cair
Em armadilha,

Preso, presa, lesma
Querendo fugir
Ao dardo, fingir, se evadir.
Ao ataque do leopardo.
 
Ir pra onde?
É sapatear no lodo, gelo,
Oficio movediço
Do buraco negro, zelo,
Que até a luz captura,
Ao que se aproxima, sina.
De tal formosura, ímã,
O olhar imprudente, 
Incauto, a certa altura,
Se transforma em escultura
De sal, feito nas escrituras.

Fábio Murilo, 02.10.2020
 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Sem Novidades


 
O mundo tá mais triste
Desanimado,  
O mundo tá um fardo.

Tá uma planície deserta 
Pra onde se olhe
Nada se vê.
Nem um planalto
Pra quebrar a mesmice,
O que eu disse,
Ou deveria,
Ou deixei de dizer
E você ouvia.
 
Não mais sereia,
Seria, no mar, mas o mar
Não está mais pra peixe.
Deleite.
 
Um caminhar 
No frio do ártico,
Estático, sem cor.
Algo camuflado,
Que, de repente,
Se mova, qualquer coisa.
Comova.
 
(Fábio Murilo, 20.09.2020)

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Confinamento


Oh, pombos do telhado,
Vocês tão livres, é nos live
Que inveja me fazem!

Nos parecemos que estamos
Sendo punidos,
Por aprisionarmos outras aves.

E as que tinham alguma liberdade,
Não voavam porque cortávamos suas asas.

Trancafiados, agora,
Em nossas casas
Como caídos na própria armadilha.
Mas, se temos comida, temos água,
Que mais nos falta?

Temos espaço a vontade, comodidade,
Gaiolas de luxo.

Que mais nos falta pra reclamarmos
Se achávamos que tinham tudo.

(Fabio Murilo, 05.05.2020)

domingo, 3 de maio de 2020



Nessa época, estudei numa escolinha de subúrbio numa residência quando muito pequeno, ainda alcancei a ultima escola com palmatória, acho eu, e onde residia duas senhoras. Um dia a mais moreninha, que tinha uma pereba na perna que  nunca sarava, uma úlcera, decorrente de ma circulação, varise estourada, sei la, algo assim, sempre enfaixada, que vivia sentada, foi tomar de mim a lição na cartilha de ABC, na letra "C", e começou, ela apontava e eu dizia CA (cê a cá, era assim que se pronunciava e assim por diante, casa do C) CE (cê é que) CI (cê e qui) CO (cê o có) CU (cê u...); aí complicou, travei! Fiquei olhando pra ela com medo de completar a sentença e olhando pra outra com a palmatória, se eu dissesse ia ofende-la, apanharia de palmatória, se não dissesse dava a entender que não saberia, apanharia do mesmo jeito. Que dilema! Entre a cruz e palmatória, digo, espada. É pau pra comer sabão e pau pra saber que sabão não se come. Aí a professora mais moreninha que tava tomando a lição, olhou pra mim, entendeu o drama, olhou pra outra que tava olhando pra outro lado e disse baixinho: PULA! Rs.

(Fábio Murilo, 02.05.2020)


quarta-feira, 22 de abril de 2020

A Fé


Se existisse um Deus
A nossa frente nos olhando
Não seríamos espontâneos.
Só agiríamos com medo
Porque tem um Deus nos olhando.

O livre arbítrio seria um desperdício.
Nada aprenderíamos
Se não estivesse errando.

Seríamos autômatos,
Não autônomos.
Não teríamos iniciativa.
Seríamos só obedientes
Subservientes,
Animal domesticado,
Pássaro engaiolado,
Árvore sem frutos.

 (Fábio Murilo, 19.04.2020)