sábado, 17 de março de 2012

ELEGIA SUBURBANA

A cabeça fervilhando,
Cheia de planos,
O desejo infinito
De dar um grito: Eu existo!
Meu caminho é obscuro,
A incerteza mora atrás de um muro,
A realidade é mais do que nunca fria!
Meus dias são tingidos de melancolia,
Levo a vida aos trancos e barrancos.
Cansado finjo que não me canso
E sigo prá não me dar por vencido.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O DEDO DA MÍDIA

Os fatos vem e passam
Com a rapidez
De um explosivo artefato.
O importante é o espanto,
O sensacionalismo barato,
O escandaloso produto
De noticioso lucro.
A comoção, o impacto.
Os fatos transformados
Em espetáculo...
No teatro do asfalto
Onde os fatos acontecem
De fato.

26.05.2003

A PASSEATA

O povo veio, com seu mau-cheiro,
Provocando asco,
Com seus poucos trapos.
O povo veio, com sua realidade,
Incomodo e revoltado.

O povo veio como uma onda,
Uma calamidade...
Cansou de ser cordeiro,
Ordeiro e pacífico,
E veio aos gritos
Cobrado melhores tratos
Pro sue mísero pasto.

31.03.89

sexta-feira, 2 de março de 2012

E AGORA?...

Estático, nem um espasmo
Involuntário de vida.
O sol, lá fora, em toda sua glória!
Pássaros... A vida palpitando...
Como um enorme coração.
Tão diferente do seu, agora.

Não vale mais que uma vala.
Até as pedras parecem mais vivas.
Criando limo, polidas pelas águas,
Travestidas de rigidez calcária.

Vários anos reunidos,
Reduzidos a nada.
Toda uma vida regrada,
Inimiga de escândalos.
Prá que?...

Até o mais desprezível ser
Não queria ser, ele, agora.

17.09.2009

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O PESO DA RACIONALIDADE

Algumas vezes
Somos ágeis e saudáveis
Como gazelas.
Noutras frágeis
Como donzelas,
Como folhas ao vento.

A vida com seus contratempos...
Ora indigesta,
Embora as festas
Que inventamos,
Embora os planos
A ilusão de comando.

Queria não ter conhecimento dos fatos,
Dos rumos dos acontecimentos.
Indiferente no pasto
Feito o gado ruminando o tempo.

14.01.2003

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

MEU HUMILDE AMIGO

Francis Jammes

Meu cão fiel, humilde amigo, sucumbiste
Sob a mesa, fugindo à morte como à vespa
Tu fugias em vida. Ali tua cabeça
Voltaste para mim no passo breve e triste.

Companheiro banal do homem, tu que em teus dias
No que falta ao teu dono achas o que te baste,
Ó ser bendito que a jornada acompanhaste
Do arcanjo Rafael e do jovem Tobias...

Tal como um santo ama ao seu Deus, num grande exemplo
Amaste-me também, ó servo verdadeiro!
O mistério de tua obscura inteligência
Vive num paraíso inocente e fagueiro.

Ah se de vós, meu Deus, a graça eu alcançasse
De face a face vos olhar na eternidade,
Fazei que um pobre cão contemple face a face
Quem para ele foi um deus na humanidade.

Tradução de Manuel Bandeira

sábado, 4 de fevereiro de 2012

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se os poderes
Nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.

Rui Barbosa