sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Flobela Espanca

Vou-me Embora Prá Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca da Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d`água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização

Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
-Lá sou amigo do rei-
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

sábado, 25 de agosto de 2012

Poema Sujo-Ferreira Gullar

Nova Poética

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, 
e na primeira esquina passa um caminhão, 
salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas,
as virgens cem por cento
e as amadas que envelheceram sem maldade.

Manuel Bandeira

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Versos a Um Canhão

Em meio às baionetas rebrilhantes, nuas,
aos toques de tambor, ao fremir das cornetas,
e à algazarra febril que se espalha nas ruas
arrastam-te em silêncio, em pesadas carretas

Ao seguires assim, pensativo e calado,
em meio à multidão que ansiosa se comprime,
lembras, a passo lento, um pobre condenado
levado ao cadafalso onde expiar seu crime!

Talvez tenhas noção do crime que praticas
se o perpetras distante, onde não chegue o olhar,
- atiras teu projétil, num rompante! e ficas
de joelhos como um monge em penitência, a orar . . .

Tanto remorso há em ti. talvez, dai culpas tuas,
e do mal que na terra entre os homens, espalhas,
que após cada estampido, assombrado recues
e ouves da retaguarda os gritos das batalhas!

Lá adiante, os homens lutam loucos e inconscientes,
e de vê-loa lutar não te sentes capaz,
- como que te acovarda o entrechoque das "frentes",
e te deixas ficar sozinho, para trás!

Gerou-te a desumana perversão da ciência
ninguém pode sentar-te no banco dos réus!
Tens "alma", - mas ter alma não é ter consciência
e teu dedo para o ar, é uma apóstrofe aos céus!

Deus sem templo e sem fé, a castigar as terras,
teu culto tem mais fiéis que o de outro qualquer deus,
- vives para o esplendor litúrgico das guerras
e dos vis interesses de cristãos e ateus!

Bem outro poderia ser o teu destino:
- uma estátua, talvez, a um sábio consagrada;
mais humano serias continuando um sino
ou mais nobre, talvez, se apenas uma enxada!


Modelaram-te inteiro, - o corpo e a alma de aço -
que culpa então terás, se o próprio coração,
ao lançares no azul como a buscar o espaço
em ruínas faz o mundo ao deflagrar no chão?!

Defendo-te por isso, - tu, que após o estrondo
tens reflexos de horror ouvindo o próprio grito!
Pareces confessar tão alto o crime hediondo
na esperança falaz de acordar o infinito!

Te arrependes talvez... mas sempre muito tarde,
- e se chego a perdoar-te a inconsciência fatal
não perdoarei o engenho pérfido e covarde
daquele que te fez como um gênio do mal!

Bradas! Em vão têm sido os rudes brados teus!
E quem sabe se inúteis sempre o não serão?
E hás de ficar na terra, a apontar para Deus
numa paradoxal e ousada acusação!

Moderno Prometeu! No teu suplício atroz
no teu gesto impotente inteiro te redimes,
- que ao falares, é em vão! ninguém te escuta a voz!
nem sei de juiz capaz de bem julgar teus crimes!

Deus escravo aos cordéis da tragédia da guerra
os homens que te movem, seguir-te-ão também,
para depois com as mãos sujas de sangue e terra
recuarem como tu... tarde demais, porém!

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Melhor fosses a estátua ou a pena de um poeta,
a ferramenta humilde de um trabalhador,
o sino de um colégio, o dardo de um atleta,
ou um símbolo qualquer de paz, trabalho e amor!

J. G. de Araújo Jorge