sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Convivência


Que eu não te pertença de vez
E tu não me pertenças tanto,
A ponto de não sentir mais
Saudade, a ânsia do encontro,
Inconstância. O relacionamento,
Depois, cimentado, a criar lodo.
Prá que o querer tão cedo
Não se extinga todo, prato dado
A quem, a dias, com fome
Numa glutonaria, rapidamente,
Será devorado. Em vez disso,
O querer feito em petisco,
Aperitivo, melhor seria,
Apreciado, degustado,  
Sem a pressa de ser saciado.

  (Fábio Murilo, 17.08.2016)

sábado, 13 de agosto de 2016

Insone


A minha estrada
Cruzou com a sua
Agora somos sol e lua.

Amanheci e já não estava só,
Acordei no meio de um sonho
E não queria mais dormir.
Tantas vezes que sonhamos
E acordamos frustrados,
Apertando os olhos, angustiados,
Querendo retomar o sono.
Porque, a realidade que somos,
Já foi, um dia, a que não fomos.

Fábio Murilo, 13.08.2016

sábado, 6 de agosto de 2016

A Voz do Morto



O morto não tem honra,
O morto não tem moral,
O morto está livre,
No corpo já não vive.

Não é bom, nem é mal,
Não age, nem interage,
Menos que um vegetal,
Igual a um mineral.

Fadado ao esquecimento,
Como se aqui nunca estivesse passado.
Vários anos apagados no quadro negro,
Desse negro quadro.

Enquanto a vida continua...
Contínua, feito um rio perene.
Versátil, diversificada,
Jamais estagnada,
Morta nem nas poças d’água.
Que mesmo ainda assim há vida,
Na água que não se vê nada.

Fábio Murilo, 24.04.2010

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Outrora


Antigamente minha voz era canção
Aos seus ouvidos, hoje é alarido,
Esbraveja, chateia, causa irritação.
Antigamente havia toda uma antecipação
De horas, do antes da hora, emoção.
Juntos, ia aonde eu fosse, se eu fosse.
Se eu ficasse, ficaria, se eu partisse, doía.
Havia tanta saudade, zelo, preocupação,
Expectativa, curiosidade, admiração.
Hoje, de antigamente se falo não lembra,
Como se antigamente não tivesse passado.

Fábio Murilo, 29.07.2016

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Compromisso



Não sou mais sozinho
O afeto me afaga,
Enfeita meu caminho.

Todo dia vens de longe,
Ergues uma ponte, caminho,
Uma porta tridimensional,
Um portal, uma saída.

Seguras minha mão e salva,
Tão generosa, dos fantasmas
Dessa vida, do tédio, da solidão.

Todo dia minha alegria
Tem hora marcada,
É a hora mágica,
Da sua aparição.
  
Fábio Murilo, 23.07.2016