terça-feira, 23 de abril de 2019

Poema da Ternura Culpada


Desculpe o tédio que se acumula;
O lodo abissal que se enrama;
A ilusão, errônea, de quem ama
E tanto confia na chama,
Cada vez mais branda,
Na cama de todo dia...
A candura que não perdura;
O hábito que criou mal hálito;
O príncipe que virou sapo,
A Cinderela que perdeu o encanto,
O conto de fada, que agora enfada.
  
(Fábio Murilo, 29.10.97)

segunda-feira, 11 de março de 2019

Temperamento


Sua vida é uma montanha russa,
Agir, reagir, se adequar.
Ofídia a enroscar a presa
Sem pressa, até dominar.

Suave feito a água, sem mágoas,
Calada a desgastar a pedra dura
Como se nas mãos houvesse lixas,
E não apenas a ácida doçura.

Barreira de coral festiva, colorida,
A segurar, das ondas, as investidas.
Bambu que verga e não quebra,
Fênix frequentemente renascida.

(Fábio Murilo, 08.03.2019)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Infinidades


Eu entendo sua calma,
Sua alma, sinto suas dores.
Temores, suas cores não usuais.
Compreendo demais.
Sonhos os mesmos sonhos.

Também sou composto,
Da mesma matéria de aflição
E ansiedade e inquietação,
Que lhe fustiga, vontades,
Insatisfação, razões e anseios.

Temos tanto um do outro,
Mulher que nem parece desse mundo,
Que não se contenta com tão pouco.

 Fábio Murilo, 07.11.2018

domingo, 4 de novembro de 2018

Elogio a Espontaneidade


Pessoas espontâneas são instantâneas,
São plenas, são elas mesmas, tão naturais.
Parecendo agora nascidas, como se
Inauguradas, jogadas, escondidas, caídas.
Jamais feridas, preservadas, ainda,
De mortal desencanto, pranto, desiludidas.

Riem alto, indiferentes as etiquetas aborrecidas.
Rainhas das surpresas, a pregar sustos.
Purinhas de coração, são o que são sem custo,
Crianças crescidas, adultos em extinção.

Fábio Murilo, 05.11.2018

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Graciosidade


Que graça é tu,
Garça, taça
De borbulhante
Champagne.

Sem esforço algum sorri,
Esboço de Salvador Dali,
Obra consagrada.

Estende os braços
Quais cisnes no lago.
Não anda, tu plana.

Avança que nem balsa,
Deslizando a flor d’água,
Nem parecendo que passa.

                                        Fábio Murilo, 24.08.2018