sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A Escolhida


Eu não preciso de mais ninguém, convicto,
Eu tenho você que só tem a ver comigo.
Mais ninguém eu persigo, já encontrei.
Abri a porta certa, estacionei, ancorei.
Todas as certezas me dizem, todas as raízes,
Todos os sóis, faróis, sinais, placas, avisos,
Indicam os risos que até agora não tive,
Todo o alivio de horas infelizes que caminhei
Sob sol inclemente a vagar, descontente
De tudo e todos, de pessoas vazias, comuns,
Que gentilmente me ofereciam só o esboço
Do que, sem esforço, naturalmente me dá.

Fábio Murilo, 15.12.2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Abstrato


O sentimento é um alazão selvagem,
É lava de vulcão, chuva de verão, voragem.
À flor da pele, é pele, compele, sensação.     
É emoção, motivo, reação, alívio, enlevo.
É intenso, propenso, autêntico, imprevisível.
Nada entende de razão, nem sentido.

É instintivo, irracional, impulsivo, ambíguo.
O resto é comedimento, receio, pretensão.
Segurar o ar nas bolhas de sabão.

Fábio Murilo, 23.11.2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Castanho


Teus olhos não são azuis, verdes, decerto,
Mas, nem é preciso de tão expressivos.
Há tantos azuis que nada dizem, opacos,
Iguais dias indecisos, ensolarados e nublados.
E certos esverdeados de fundo de poço,
De poças estagnadas igual a qualquer água.
Os teus são de um castanho advindo, refletidos,
Surgindo, meio tom, discretos, tímidos.
Afã das primeiras horas o dia construindo,
Leite no café derramado a lá cappuccino.

Fábio Murilo, 16.11.2017