sábado, 3 de janeiro de 2026

Casas com varanda que não servem pra nada, mal projetadas, olhando pra onde? Pra parede da casa da frente, pra rua sem movimento. Um desalento, um tédio ficar sentado. Se ao menos fosse num prédio lá em cima, olhando o horizonte, as luzes da cidade grande, dos bairros distantes. Não dá pra nem ao menos pra ver a lua, que nasce por trás em vez de ser na frente. Nada de interessante, olhar o que? É melhor ver TV mesmo dentro de casa do que ficar na sacada. Nem dá pra fazer um churrasco, é um fiasco, a tarde o sol bate de frente. É uma varanda de faz de conta, só pra dizer que consta.

(Fábio Murilo, 29.12.2025)

domingo, 30 de novembro de 2025

ESTUPEFATO

Com um perfume barato
Forte e adocicado.
Com uma roupa amarelo manga,
Com um arranjo no cabelo
Parecendo um jardim florido.
É um apelo, atentado,
É um (arte)(fato),
É uma extravagância,
Uma exuberância.
Chamativa ao extremo
Que chega a doer na vista.
Tudo que se diga é em vão,
E vão cuidar da própria vida. 
 
(Fábio Murilo, 29.11.2025)

quarta-feira, 5 de novembro de 2025


Lembrei de seu Clodoaldo.. Seu Clodoaldo  morava só e era comum vê-lo na mesa da sala lendo um livro ou no barbeiro vizinho conversando. Um dia enquanto esperava pra cortar o cabelo conversava com seu Clodoaldo e ele recitou Versos Íntimos de Augusto dos Anjos de cor, fique admirado, muito culto! Um dia uma moça, que ele nunca tinha visto e não era nada dele, se aproximou e alisou seus cabelos brancos, querendo parecer simpática, e disse: "tudo bem, vovô", "como vai vovô", ai ele de súbito pôs as mãos entre as pernas dele e disse: "Olha aqui pra você!", ela deu um pulo pra trás e começou a esbravejar: "Velho nojento!!!", "imundo!", "podre!", "mal educado", "anormal" enquanto ele dizia, "Boa! Agora! Prefiro que me trate assim!".

(Fábio Murilo, 05.11.2025) 

domingo, 19 de outubro de 2025

 

Era menos monótona, era uma rota de fuga, uma ajuda, uma injeção de animo, algo de improviso, melhor que combinado. O combinado frequentemente dá errado, não sai exatamente como a gente quer, as vezes chove, as vezes falta energia no lugar. Um acidente de percurso, um luso fusco numa praia qualquer que nem parecia mais o mesmo lugar. Um eclipse total do sol, ou um arrebol, um espetáculo à parte. Um quadro de Salva(dor) Dali, mas de cá, mais perto, nesse exato instante e lugar. Como ser abduzido, como ser arrebatado num carro de fogo.

 (Fábio Murilo, 19.10.2025)


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

 

Tem o talento, mas também tem o destino. Do menino jogando bola num campo de várzea, aí passa um olheiro que ninguém sabe e para um pouco pra assistir que nem os outros e leva menino pra jogar num time grande. Tem a moça bonita que vai ao dentista onde tá também esperando pra obturar o dente o organizador do concurso de miss daquele estado que impressionado convida ela, que posteriormente ganhou o concurso e disputou o miss Brasil e também ganhou e também o miss mundo e depois casou com um ator de TV. Da moça que tava na praia como as outras e ia passando no calçadão aquele diretor de televisão que bateu o olho e logo convidou pra trabalhar na famosa emissora a qual faz parte, e logo virou atriz de televisão só com a cara, sem fazer curso de artes dramáticas. Que coincidiu, antes, de estar naquele exato instante, no momento oportuno, no horário marcado, como se fosse combinado.

 (Fabio Murilo, 17.10.2025) 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Na TV o apresentador do telejornal comentado sobre a imagem de abertura do centro da cidade, disse, a imagem é de drone. E eu nem perguntei de onde era, se de drone, de helicóptero, de um satélite, da janela de um edifício. Tempo desses perguntei a alguém se tinha um celular pra eu explicar algo de seu interesse e ele disse eu tenho iPhone então eu desisti, pois ele não tinha celular. Uns não bebem cerveja, bebem Heineken. Outros não tem carro, tem Audi. Uns poucos um Cartier no braço, que será porque marca as horas ao contrário, em sentido anti horário? E o tempo volte e vai-se ficando mais jovem por isso é tão caro.

(Fábio Murilo, 13.10.2025)


segunda-feira, 13 de maio de 2024

AS QUE SOBRESSAEM


Mulher bonita que seu corpo suavize,
Amenize a rispidez dos dias,
Seu todo harmonioso vivi(fique)
Como um sacerdócio,
O ócio da contemplação.

Pare o homem, pare a rua,
Pare o transito, por um momento,
Reparem o acontecimento,
 Tudo fica em suspenso.
Há quem cause esse efeito imediato,
 Como? Reclamarāo as outras, tolos,
Não existe outra mulher no mundo?

 Chega como um carro inesperado,
  Dobrando a esquina
 Ou que tendo perdido o freio 
No meio da ladeira.
 Como o furacão katrina,
 Como um rio transbordando
 E alagando tudo.
Uma chuva de verão
Sem sobreaviso, 
 Como ímã, como rima,
 Como visgo que fisga,
 Teia, cola que adere,
 O olho que olhe e acolhe.
 
 E todos artifícios são armas,
Dão uma calma convulsiva.
 Dão charme, dão graça, acrescenta,
 Torna-a altamente atraente,
 Insinuante, desejável.
 Só não cria o que antes não havia.
 Apenas realça os atributos,
 Evidência o que já exista de fato.
  
(Fábio Mur
ilo, 13 05.2024)