quinta-feira, 28 de março de 2013

Frankenstein Jr.

Ensinarei meu filho
A ser frio e calculista.
Um monstro egocentrista.
Um acirrado capitalista.
Ensinarei meu pimpolho
A abrir o olho
E a passar a perna
No primeiro otário.
A trabalhar a imagem, miragem,
Feito um bom publicitário.
Ensinarei meu pirralho
A exercitar o poder
E a sufocar o pudor.
Pra que então o fedelho
Passe a só pensar em dinheiro
E a justificar os meios
Pelo fim.
Aprenderá o garoto
A ser o oposto de mim.

Fábio Murilo

7 comentários:

  1. Esse "Frankenstein Jr." tem futuro... Parabéns pelo poema, Fábio. Acho que contesta, de forma muito criativa, um comportamento cada vez mais frequente na humanidade. O blog e os poemas são ótimos!
    E obrigado pela sua contribuição lá no "Eu colírico", muito pertinente! Abraço!

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    1. Pois é, Vanderson. Fui inspirado a compô-lo depois de ouvir um trecho de conversa de um colega de trabalho, comentando com outro, sobre seu dilema em relação à educação do filho, seu receio em orienta-lo a seguir os ditames da igreja, da religião e o medo de torna-lo um futuro fraco, na realidade um despreparado, uma ovelhinha em meios aos lobos dessa sociedade competitiva.

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  2. Uau, isso me fez lembrar de algumas pessoas! É claro que ninguém quer ensinar um filho a virar um monstro como esse do poema. Mas a verdade é que, mesmo sem querer, algumas pessoas acabam criando monstros, exatamente como o poema diz. Mas, aí eu fico pensando se esses filhos são realmente tão diferentes assim desses pais, ou se no fundo eles são iguais. Gostei, me fez pensar!

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    1. Você também me fez pensar, ou melhor, lembrar, de um vizinho de infância. Chama-lo de arteiro é um elogio. O menino era perverso, mimado ao extremo, “um capeta em forma de guri”, verso de uma música de minha infância, não sei se o compositor era gaucho, pelo “guri”. Tudo que fazia “a mãe passava a mão em cima da cabeça dele” e dizia, morrendo de rir: - Ele é assim mesmo, e tome permissividade. Num final de uma tarde memorável, ele subiu no telhado da vizinha e começou a jogar as telhas no chão, ela prontamente foi se queixar ao pai, um militar reformado. O Pai começou a suplicar-lhe que descesse. Ele dizia do alto, desafiador: - Vai comprar minha bicicleta Tigrão não (bicicleta listrada, imitando a pele do tigre, daí o nome, muito bonita) O pai disse: - No final do mês! Ele retrucou: - Não, agora. No outro dia pela manhã, sua exigência foi atendida, com o telhando devidamente consertado no dia anterior. É clássico: esse amor de menino se transformou num delinquente fino, ao crescer, inclusive com episódios de abuso sexual. Acostumado à vida toda a ter tudo nas mãos, a viver sem limites. Ufa!!! Acho que escrevi um conto ou algo parecido. Obrigado Ulisses pela visita, e sua opinião perspicaz, foi uma satisfação.

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    2. De nada, Fábio! Não sei se o compositor da música citada era gaúcho, mas eu também a conheço, é bem antiga, né? Um tempo atrás, escrevi um texto sobre esse assunto, quando quiser, procure por "O dia das crionças" no meu blog, acho que vais gostar de ler! Entendo perfeitamente tuas palavras, e concordo com elas! Abraço!

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