sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Janela


A pedra olhada mais detidamente, é vária,
Servindo de abrigo ao tímido inseto,
Refletindo a claridade, criando limo.
E aqueles transeuntes apressados,
São depósitos de sonhos, itinerantes,
São máquinas calculadoras ambulantes.
A vida tem compartimentos, instantes:
O instante do facho de luz que penetra
Pelos vidros da janela cortando a escuridão,
Trazendo a manhã pelas mãos;
Da formiga que sobe em meu braço,
Em meio à selva de pelos, obstáculos;
Da existência toda resumida num só bolo,
Não saboreada nos detalhes, nos contornos,
Pelos cantos, feito um prato de papa;
Das luas que se desfazem em fases;
Das estrelas que brilham mais,
Quando se apagam as luzes artificiais;
Do óbvio tão imperceptível na cidade,
Invisível a quem vive apresado,
Obcecado por necessárias futilidades.

Fábio Murilo, 17.09.2014

34 comentários:

  1. Boa noite, Murilo.
    Pela janela observamos o quanto a vida pode passar tão rapidamente e nós mesmos não fazermos nada de boa qualidade para vencermos o mecanismo tão automático de sabotar os sonhos em meio ao encontro selvagem da nossa existência.
    Seria muito bom que víssêmos a beleza em cada lugar e déssemos vazão ao sonho de felicidade sem escravizar-nos na correria diária.
    Tenha um fim de semana de paz.
    Beijos na alma.

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    1. Oi Patricia, Boa Noite! Disse tudo e muito bem! Sintetizou com perfeição a ideia do texto. Essa correria, nos escraviza, quando se vê, perdemos toda vida, ai é tarde, é o perigo. Beijos, Pat!

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  2. Bom dia Fábio
    Que maravilha de poesia. Da janela pode observar-se muita coisa, muita mesmo.

    Tem um feliz fim de semana,
    Beijo

    http://coisasdeumavida172.blogspot.pt/

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    1. Oi, Cidália, obrigado, tudo é uma questão de angulo, de foco, "Quem tem olhos pra ver que veja". Obrigado.

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  3. Vivemos num mar de preocupações e de responsabilidades, porém, devemos ter sensibilidade e gratidão, para percebermos a benção que é a vida.
    Bonito, Fábio!
    Beijo!

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    1. É, o problema é que esse mar vai nos engolindo, mavo-nos acostumando com a rotina, ficando anestesiados das emoções, nas reações, e não salvando aquele naufrago, aquele potinho preto, nós mesmo no meio do mar revolto, da corrente que vai nos arrastando cada vez mais. Obrigado, Shirley. Beijos!

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  4. Bom dia bom final de semana
    com muita chuva por aqui.

    Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca o seu coração

    . (Gabriel García Márquez)

    Bjuss de sempre

    └──●► *Rita!!

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  5. "necessárias futilidades", acho que esse foi um desfecho profundo e não poderia ser mais apropriado, Fábio, pois resumiu todo o poema em um verso.
    Quantas delicadas e pequenas coisas tão importantes perdemos de vista quando nos preocupamos com as nossas necessidades fúteis, tão mesquinhas e minoritárias do que a própria vida...
    Muito bom! Sempre bom te ler, um ótimo fim de semana.
    Beijos

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    1. Poxa... Que tirocínio! Enquanto isso a vida escorre de nossos dedos, escapa , em vão, de nossas mãos. Captou com perfeição a essência do texto. Obrigado, Carol. Beijos!

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  6. Boa tarde Fábio... é por estas janelas que a vida entra.. que vemos nós mesmos refletidos no exterior..
    já escrevi muito sobre elas.. sempre são fontes de inspiração.. abraços poeta

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    1. Opa, Samuel, nobre poeta. De repente não sei se é porque se está inevitavelmente focado, sem a dispersão do espaço aberto, o individuo, tem esse instante de lucidez. De repente imagino essa janela como a de um hospital, onde alguém, subitamente, vê sua vida pausada, em sinistra expectativa e repare que tudo que acreditou pode dar em nada, que o que vale realmente ele não tenha dado valor até então e faça uma retomada de consciência e procure buscar o tempo perdido, deseje ardentemente a vida, enquanto é tempo. Obrigado! Abraços.

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  7. De uma janela aberta para o escuro da noite que traz a madrugada nas suas mãos, podemos ver o quanto vivemos alheados das pequenas coisas , tornados autómatos de um dia atrás do outro, sem novidade ou maravilha.
    Tudo se vê melhor quando se apagam as luzes artificiais. É bom que acordemos para o que é essencial, mas de facto as grandes cidades são um sorvedouro de emoções.
    Um dos mais belos poemas que aqui li.
    xx

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    1. Obrigado, Laura, não preciso acrescentar mais nada, comentou muito bem!

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  8. É preciso desapressar o passo, desacelerar a vida... para que as pequeninas coisas do dia a dia possa encontrar guarida na sensibilidade e no encantamento do olhar tantas vezes perdido nas luzes artificiais...
    Sorrisos e estrelas,
    Helena

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    1. É mesmo, Helena, difícil é desacelerar e não se deixar levar pela correnteza dos compromissos, dos horários marcados do "inadiável", do automatismo a que fomos condicionado. Obrigado.

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  9. OLÁ Fábio
    Passando para conhecer um pouco do seu blog. E chegando aqui encontro esta profunda poesia.Dá janela observamos a natureza da luz das estrelas que nos encantam. Parabéns pelo bela postagem, Aguardo sua visita quando puder. Um lindo dia para vc.
    Ana
    Estou seguindo seu blog e se vc tiver vontade me siga me ficarei super feliz.

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    1. Olá, Ana. Que legal! Sinta-se a vontade. Obrigado pela visita.

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  10. O cotidiano fatigado fica mais emocionante quando esparramado em tuas linhas.
    Linda semana, te desejo.

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    1. Ô, quanta gentileza, jovem poetisa, tu que é demais!

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  11. Quem vive com pressa não enxerga nada em seu caminho. E aos poucos estamos perdendo a sensibilidade de contemplar as coisas simples. Um abraço!

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    1. Oi, Nanda. Pois é, estamos cobertos de razão. Todos estão surdos, cegos, mudos. Abraços!

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  12. Muito bom, Fábio. Inadmissível, mas é fato. O doce sabor da vida tem se tornado amargo, diante do destempero das indiferenças diárias, da ausência de prioridades que arejam a alma, da falta de tempo que priva o brilho do partilhar as emoções, dando espaço ao pez da solidão. Texto belo e intenso. Parabéns!

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    1. Oi, Lu. Seu comentário dispensa maiores comentários. Muito lucido e corrente e preciso. Somou!

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  13. Que contemplação mais linda Fábio, confesso, dos teus este é o meu poema favorito, tá. Já escolhi!
    Lindo mesmo. Gosto desses ínfimos detalhes onde esconde-se o belo. Em minúsculo.
    Grande abraço, és ótimo.

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    1. Obrigado, Nato. Que bom que apreciou tanto o poema. Abraço.

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  14. Que lindo! Quando nascemos nos é dado uma janela: por ela passam sentimentos observados que um dia nem cogitamos em assistir. Moro defronte a uma área arborizada e um enorme hospital, e por ela vejo as mais incríveis paisagens humanas desfilando seu arsenal, ora de egoismo e descaso, ora de amor e de cuidados. Vejo então a verdade de uma simples janela por onde enxergamos os valores reais, distintos da nossa vida.

    Beijo!

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    1. Que interessante, inicialmente imaginei esse poema escrito de uma janela de hospital, o titulo até seria, a princípio janela do hospital. Imaginei o mundo na visão de uma pessoa se convalescendo, olhando-o por esse prima, reparando e reconhecendo o valor das coisas, antes consideradas inexpressivas, insignificantes, banais, agora não mais. Beijo, Tais!

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  15. "Já não se escrevem mais poemas,
    Escreve-se memorandos e ofícios;
    Já não se tem mais apreço,
    Tem-se um preço, um custo;
    Já não há mais relacionamentos,
    Há um pacto, um contrato;
    Já não se tem mais amor,
    Tem-se um caso, um passatempo;
    Já não somos mais humanidade,
    Somos um aglomerado, um agrupamento."
    Fábio, não encontrando um novo poema para curtir e admirar, e tendo um pouco de tempo a mais, fiquei passeando por outros versos teus e lá no princípio do ano deparei-me com Desencanto. A imagem de uma calçada vazia onde apenas uma flor se sobressai e os versos acima que impressionam pela clareza com que expuseste uma realidade tão presente hoje nos sentimentos e nas emoções que configuram um relacionamento.
    “Já não somos mais humanidade,
    Somos um aglomerado, um agrupamento.”
    Tanta verdade expressa nestes últimos versos!
    Dei também uma passeada pelas mensagens e só posso dizer que é uma pena não ter descoberto há mais tempo este teu blog tão verdadeiro, tão sincero, e com tanta coisa para se apreender e aprender, através da tua imensa capacidade literária.
    Receba minha admiração através de um punhado de sorrisos que te deixo atados no brilho de mimosas estrelas.
    Com carinho,
    Helena

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    1. Oh, muito obrigado, Helena. Sinto-me lisonjeado por suas gentis e amáveis palavras. Muito obrigado pelo carinho, você é sempre muito bem vinda.

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  16. olá!Fábio!
    vim conhecer seu espaço poético e me encantei...para começar pelo titulo do seu blog...a poesia está morrendo?se depender de poetas como você!não morrerá jamais.
    Lindos seus escritos...tem uma profundidade em cada palavra...realmente vejo que a cada dia o ser humano tem menos tempo para se debruçar em uma janela e ficar apreciando pequenos detalhes e belezas.Um por do sol...uma noite estrelada,,,tem gente que nem sabe em que lua estamos...eu amo tudo isto!gosto de ficar apreciando tudo da minha janela...uma criança que passa...um idoso...gosto de apreciar a vida e os presentes lindos que Deus nos concedeu...não costumo comentar poemas...mais este me levou a deixar estas palavras!
    Obrigada!pela visita e por estar me seguindo...
    estou fazendo o mesmo aqui..
    Tenho mais 2 blogs além do principal...adoro postar!poetizar...
    Um abraço!seja sempre bem vindo!

    http://umcoracaoalado.blogspot.com.br/

    http://comalma-coracao.blogspot.com.br/

    http://ternuras-da-alma.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado, Sandrinha, que bom que tenha gostado, a casa é sua. O perigo é ficar olhando a vida só da janela, vendo de camarote, não tomar a vida para si e se transformar em coadjuvante da propria estoria. Ver a vida apenas acontecendo e a gente se esquivando por falta de tempo, por comodismo, tirando por menos. Abraço!

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  17. a janela como possibilidade de luz entrar em sair, não pela negatividade. mas do modo mais positivo e profundo possível. é belo!

    dentrodabolh.blogspot.com

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